"Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante. Ter uma vida interessante significa viver plenamente. Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito importante para você. É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim.”

O autor do texto acima é o psicanalista, escritor e dramaturgo Contardo Calligaris. Ele escreveu um livro com o nome do título deste post.

Então queria propor um exercício em homenagem a ele. Um exercício de auto reflexão. Será que sua vida anda interessante?

Interessante é saber usar a própria história em seu favor. Saber reconhecer sua sombra. Não esperar que a solução ou a “felicidade”venha do outro – seja o outro o que for (um emprego, casamento, uma paixão, uma casa nova).

Interessante é não se reduzir ao que a vida fez com você. Não se reduzir ao personagem vítima que só reclama e guarda rancor. História não é destino. Pergunte-se qual é a sua responsabilidade naquilo que te incomoda. “A culpa é do outro”, faz um roteiro de vida nada interessante.

Interessante é não ter medo do ridículo. E aqui talvez seja muito útil ir um pouco contra a ideia da felicidade, porque ela não combina muito com os erros, os fracassos, não é? E onde a gente chega sem eles?

Interessante é reconhecer que apesar da ideia de felicidade ser muito individualista, a vida é coletiva. Nada é construído sozinho. Então reconheça seus pares, forme novas alianças, dê uma chance ao outro, invista afeto nas pessoas. Mesmo um monólogo é construído por várias pessoas. E quando não é, é um tédio absoluto. A vida é coletiva também significa não usar todo o seu tempo para pensar apenas nos seus problemas. O motor da depressão é o excesso de si mesmo.

Interessante é não ter medo do que é complicado. Nem sempre funciona a lógica de “estava com vontade, fui lá e fiz” “senti um incômodo enorme, então decidi que precisava abandonar”. A ideia de felicidade está um pouco associada à ideia de uma praia, uma ilha deserta, a paisagem mais calma do mundo, onde tudo só dá certo, onde você e sua volta parecem uma coisa única, tamanha sintonia. Sabe o que essa imagem perfeita da praia traz para a psicanálise? O desejo de nada. Pulsão de vida é outra coisa. Vida é caos, é criatividade, é transformação, é eros. Quando ficar exausta de tanta “vida” pense: talvez não seja hora de desistir, porque cansaço é normal de se sentir quando se está no meio do caminho de algo grandioso.

Ninguém tem uma vida interessante sem pagar nenhum preço. Mas o pior preço seria o de passar a vida e não viver. Ou como dizia o Contardo “A maior traição, a que é verdadeiramente imperdoável, é quando a gente trai a nós mesmos, quando traímos o nosso próprio desejo. O fato de desistir de uma coisa que é para nós muito importante, essa é a verdadeira traição.”